
Há alguns meses, antes de Avenida Brasil estrear, eu esperava uma novela ousada e com características de trama policial. Quando se fala na rodovia que corta quase todo o subúrbio carioca, passando pelas favelas mas violentas do país, não se pode esperar nada ameno. Porém, quando assisti pela primeira vez a chamada de elenco e a abertura, senti uma grande decepção. Estava na expectativa de ouvir um rock, não tão pesado, mas com os sons graves bem trabalhados, e ver a Avenida Brasil real, com o trânsito caótico, com os conflitos armados que ocorrem ao redor da via, etc. O enredo inicial também não me pareceu muito chamativo.
Tudo mudou quando o primeiro capítulo foi ao ar. A minha atenção foi despertada pela belíssima atuação dos atores e das características da filmagem. Mesmo assim, não esperava nada muito grandioso. Conforme a estória foi ganhando agito e reviravoltas, a minha audiência foi se tornando mais frequente. Semanas antes do centésimo capítulo, já não perdia um sequer. A problemática central que “não pegou” no começo ganhou proporções maiores e se tornou mais chocante. Esse fator somado à estética cinematográfica garantiram os bons níveis da novela no IBOPE e no meu conceito.
Com tanta garantia de sucesso, algumas empresas usaram o tema extremamente popular no espeço público para se autopromoverem. Dentre eles, destaco a Supervia (concessionária responsável pelo sistema de trens urbanos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro):

Além de passageiro rotineiro da empresa, eu voltava de trem para casa da faculdade também pelo motivo explicitado no banner. Até eu, o sujeito que vos escreve, usei o “OIOIOI” para ganhar audiência em meu outro blog, fazendo uma ligação com outro espetáculo da dramaturgia brasileira: Senhora do Destino.
O ritmo musical que, em princípio, tinha a minha desaprovação se tornou a marca da telenovela. Luis Erlanger, ex-ecoíno* e diretor da Central Globo de Comunicação, esteve presente no VII Seminário Internacional Obitel, evento sobre ficção televisiva organizado pelo Globo Universidade, ECA-USP e ECO Pós e realizado em agosto desse ano. Lá ele explicou a escolha da trilha sonora da abertura, bem como ela em si. Algo mais “pesado” poderia afastar a audiência, que não está habituada com material do tipo. O Kuduro e as pessoas dançando servem para amenizar os choques que surgiriam no decorrer da trama.
Os esteriótipos constantemente apresentados de maneira caricata me desgradaram. É óbvio que grande parte da nova classe C que emergiu das classes mais baixas comete erros de português frequentemente. No entando, essa característica foi exacerbada em alguns personagens. O fato de ser um suburbano carioca não obriga o sujeito a dizer “mermo” ou falar como um traficante. Apesar desse aspecto, o subúrbio foi bem representado como um lugar de muito contato humano e em pleno desenvolvimento econômico.
O que me irritou mais do que os esteriótipos foram os “do contra”. Essas pessoas, que se acham mentalmente superiores, pregam um discurso massivamente, a ponto de ter se tornado clichê: a alienação. São revolucionários de Facebook, pseudo-comunistas, a resistência contra o sistema. Dizem que assistir novela é alienante, como se toda e qualquer forma simples de entretenimento fosse uma armadilha para nossos cérebros. Chegaram a comentar que Avenida Brasil foi produzida justamente para desviar as atenções do julgamento do Mensalão. Esses mesmos acusadores que chamavam a Rede Globo de tucana nas últimas eleições presidenciais. Não há corência no que dizem. Admito que estão certos quando dizem que nossas prioridades devem ser formadas por temas sérios, mas isso não significa abominar os meios de comunicação e o entretenimento.
Não quero que gostem de Avenida Brasil ou de qualquer outro folhetim televisivo, apenas acho que ninguém deve negar o sucesso e o impacto do “OIOIOI” e, principalmente, sua qualidade estética, contida desde na iluminação até nas técnicas de filmagem, assim como dramática, rompendo com o modelo tradicional de telenovela apresentado há décadas no Brasil. João Emanuel Carneiro, Ricardo Waddington, Amora Mautner, José Luiz Vilamarim, o elenco (Adriana Esteves, principalmente) e toda a equipe por trás da produção estão de parabéns.
*Ecoíno é o termo empregado informalmente aos estudantes da ECO/UFRJ.